El buen humor

O humor, o riso e o divino

Viñeta de Cortés
Viñeta de Cortés

Sobre Deus que sabemos nós? Sabemos que Deus é Agapê: Amor incondicional. Segundo São João Deus é Logos: Razão, Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência

«O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está atravessada pelo bom humor, porque ‘um santo triste é um triste santo'»

«Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo»

«Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino:’… Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen'»

Por Anselmo Borges

Pediram-me uma vez uma reflexão precisamente sobre o tema em epígrafe. Aí fica uma tentativa.

Sobre Deus que sabemos nós? Ele é infinito e está para lá de tudo o que possamos pensar ou dizer. O que sabemos dEle sabemo-lo através de Jesus, a sua revelação no mundo.

Através de Jesus, sabemos que Deus é, como se lê na Primeira Carta de São João, Agapê: Amor incondicional. Mas o Evangelho segundo São João também diz que Deus é Logos: Razão, Inteligência e que tudo foi criado pelo Logos. Por isso, Deus tem sentido de humor, pois o humor é sinal de inteligência. Não é o humor fino revelador de uma inteligência fina?

Logo no primeiro livro da Bíblia, o Génesis, há uma passo belíssimo em conexão com o riso. “O Senhor apareceu a Abraão quando ele estava sentado à porta da sua tenda”, sob a figura de três homens. ‘Onde está Sara, tua mulher?’ Ele respondeu: ‘Está aqui na tenda. Um deles disse: Passarei novamente pela tua casa dentro de um ano, nesta mesma época, e Sara, tua mulher, terá já um filho’. Ora, Sara estava a escutar à entrada da tenda. Abraão e Sara eram já velhos, e Sara já não estava em idade de ter filhos. Sara riu-se consigo mesma e pensou: ‘Velha como estou, poderei ainda ter esta alegria, sendo também velho o meu senhor?’.” O que é facto é que “o Senhor visitou Sara, como lhe tinha dito, e realizou nela o que lhe prometera. Sara concebeu e, na data marcada por Deus, deu um filho a Abraão, quando este era já velho. Ao filho que lhe nasceu de Sara deu Abraão o nome de Isaac. Abraão tinha cem anos quando nasceu Isaac, seu filho. Sara disse: Deus concedeu-me uma alegria, e todos quantos o souberem alegrar-se-ão comigo.”

Há aqui dois tipos de riso: Sara ri-se para dentro: como é possível, velha, ter um filho? Mas ao filho é dado o nome de Isaac, que, em hebraico, quer dizer “riso”, sendo aqui o riso um riso intenso de alegria: Isaac também quer dizer “aquele que traz alegria”.

De Jesus diz-nos o Evangelho que chorou: chorou pela morte do seu amigo Lázaro, também sobre Jerusalém. Não se diz que riu. O nome da rosa, de Umberto Eco, anda também à volta dessa questão. Mas já Santo Tomás de Aquino observou que é evidente que Jesus riu. A prova: Jesus é homem e rir é característica essencial do ser humano. Jesus participou em festas de casamento e alguém imagina uma festa de casamento sem risos, sem piadas festivas? O Evangelho testemunha que Jesus experienciou o melhor sentimento face à vida e ao seu milagre: o do maravilhamento e do contentamento.

Tomás de Aquino

O humor e o riso, repito, são um sinal evidente de inteligência, desdramatizam a vida, permitem viver de modo sadio consigo próprio, fazem bem à saúde, abrem transcendências. A Igreja está atravessada pelo bom humor, porque “um santo triste é um triste santo”. E há piadas fatais. Lá está o dito famoso: “ridendo castigat mores”: a rir castiga-se e corrige-se os costumes. Gil Vicente foi exemplar nisso. Digo: ai da Igreja e dos crentes sem a crítica mordaz, ácida, pela palavra e pela caricatura! O que não se pode é cair na boçalidade, pois esta apenas significa falta de inteligência. O riso também cura a vaidade oca: “Mesmo no mais alto trono do mundo, está-se sentado sobre o cu”, escreveu Montaigne.

Na Idade Média, realizava-se a chamada Festa dos Loucos, uma crítica brutal ao poder eclesiástico. Pegava-se num subdiácono, o grau mais baixo da hierarquia, era vestido de bispo, colocado em cima de um burro, entrava na igreja com a face voltada para a cauda, de costas para o altar. Em momentos fundamentais da liturgia, o celebrante e o povo zurravam. Na transmissão simbólica do báculo episcopal, rezava-se o Magnificat naquele passo: “e Deus derrubou os poderosos e exaltou os humildes.” Chamada a pronunciar-se, a Faculdade de Teologia de Paris, justificou-a com a necessidade de dar expansão à crítica, voltando depois a ordem.

A propósito da força crítica da piada e da caricatura, fica aí esta sobre o Vaticano e todo aquele luxo, que blasfema do Evangelho de Jesus, no fausto de uma procissão com cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores… Veio São Pedro à janela do Céu e viu aquilo e, estarrecido, chamou Jesus, que olhou e apenas comentou: “E pensarmos nós, Pedro, que começámos aquilo, entrando de burro em Jerusalém onde fui crucificado… Lembras-te?” Por isso, respondi uma vez a uma jornalista:“Não. Jesus não entraria no Vaticano, porque não o deixariam entrar.”

Viñeta de Cortés
Viñeta de Cortés

Francisco socorre-se também do bom humor, e todos os dias reza a Oração do bom humor, oração atribuída a São Tomás Moro, o autor de A Utopia, o ex-chanceler que não se esqueceu de levar a gorjeta para o carrasco que ia decapitá-lo.

Francisco recomendou-a também aos membros da Cúria Romana, onde tem tantos adversários e até inimigos, a quem falta o bom humor divino: “Dá-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir./ Dá-me um corpo saudável e o bom humor necessário para mantê-lo./Dá-me uma alma simples que sabe valorizar tudo o que é bom/ e que não se amedronta facilmente diante do mal, /mas, pelo contrário, encontra os meios para voltar a colocar as coisas no seu lugar./ Concede-me, Senhor, uma alma/ que não conhece o tédio,/ os resmungos,/ os suspiros/ e as lamentações,/ nem os excessos de stress por causa desse estorvo chamado ‘Eu’./ Dá-me, Senhor, o sentido do bom humor./ Concede-me a graça de ser capaz de uma boa piada, uma boa piada para descobrir na vida um pouco de alegria/ e poder partilhá-la com os outros./ Ámen.”

Humor y cristianismo, ¿incompatibles?

El humor facilita la comunicación y la buena relación entre las personas y expresa una característica propia de todo ser humano, a saber, que estamos hechos para la alegría y la felicidad.

El cristianismo es compatible con todo lo humano, con todo lo que dignifica a la persona. Hay un proverbio latino que Pablo VI utilizó en alguna ocasión: “soy hombre, nada humano me es ajeno”. El humor es un rasgo propiamente humano que facilita la comunicación y la buena relación entre las personas y expresa una característica propia de todo ser humano, a saber, que estamos hechos para la alegría y la felicidad. San Pablo recomendaba a los cristianos que, sobre todo con los no cristianos, nuestra “conversación fuera siempre agradable”. Y añadía: “con su pizca de sal”. O sea, con un poco de humor y hasta de ironía.

Posiblemente Jesús de Nazaret debía reírse de las ocurrencias que tenían los comensales con los que compartía la mesa. Él también debía contar allí cosas graciosas. A Jesús le encantaba compartir la mesa. Y eso solo se hace con los amigos y la gente de confianza. Y entre amigos siempre reina el buen humor. Eso sí, si buscamos en los evangelios alguna palabra chistosa es posible que no la encontremos. Pero si nos fijamos bien, veremos que Jesús empleaba la ironía y tenía giros y expresiones que, sin duda, sorprendían y posiblemente despertaban más de una sonrisa. Por ejemplo: es más fácil que un camello pase por el ojo de una aguja que el que un rico entre en el reino de los cielos. Y cuando llamaba a Herodes zorro seguramente más de un oyente, que se debía sentir molesto y oprimido por Herodes, debía reírse interiormente y a lo mejor hasta aplaudir exteriormente.

Recuerdo algunos ejemplos de la vida y escritos de Santo Tomás de Aquino, del que seguramente muchos se hacen una imagen de gran seriedad. Un día los compañeros de Santo Tomás, para reírse de él, le dijeron: Fray Tomás, acérquese a la ventana, porque hay un burro volando. Cuando el santo se acercó hubo una risotada general. Lo que no se esperaban era la reacción de Tomás, que está llena de humor: entre que un burro vuele y un religioso mienta, me parece más imposible lo segundo que lo primero.

Otro rasgo de humor: cuando santo Tomás comenta el artículo sobre la vida eterna, dice que allí quedarán saciados todos nuestros deseos y pone el siguiente ejemplo: todos deseamos honores y así los sacerdotes desean ser obispos y los hombres corrientes desean ser reyes. Pues ambas cosas se conseguirán allí. Si eso no es humor (sobre todo eso de que los sacerdotes en el cielo serán obispos), debe ser algo muy parecido.

Santo Tomás dice que la tristeza es lo que más daña al cuerpo. Por tanto, habrá que concluir que la alegría es lo que más le favorece. En otro lugar dice: del mismo modo que el cuerpo necesita descanso, también el alma la necesita. Y añade: el alma encuentra el descanso en la diversión. Dice también: el juego es necesario para llevar una vida humana.

Y una cosita a propósito de los límites morales. El humor nunca puede ser ofensivo ni utilizarse para descalificar a nadie. El humor no es burla, tampoco es ridiculizar a los débiles. Cuando esto ocurre se convierte en algo zafio y barato. El humor es inteligente. No hay nada más serio que el buen humor

Rezar juntos y reír en común

Pagola: «Los que ríen juntos no se atacan ni se hacen daño»
«Los cristianos olvidamos hoy con demasiada frecuencia que un grupo de seguidores de Jesús no es solo una comunidad de oración, reflexión y trabajo, sino también una comunidad de descanso y disfrute»
«Agustín de Hipona lo definía así en el siglo IV: Un grupo de cristianos es un grupo de personas que rezan juntas, pero también conversan juntas. Ríen en común y se intercambian favores»
«Hay un humor y un saber reír que es signo más bien de madurez y sabiduría. Es la risa del creyente que sabe relativizar lo que es relativo, sin dramatizar sin necesidad los problemas»
«Esta risa une. Los que ríen juntos no se atacan ni se hacen daño, porque la risa verdaderamente humana nace de un corazón que sabe comprender y amar»
Por José Antonio Pagola Seguir leyendo